Vol.3 - Pão e Circo


Todo começo de ano, parece que a única coisa que se discute na mídia é Big Brother (seguido por uma infinidade de reality shows cretinos) e o crescimento da violência. Nada de mais relevante existe nesse país, nenhum mísero problema. Excetuando os dois temas, vivemos no vácuo da rotina quotidiana: será que a partir de agora, no limiar do glorioso “novo milênio”, nossas vidas serão resumidas a acordar, trabalhar, assistir B.B. e dormir, ao mesmo tempo que desviamos de balas perdidas e escapamos de seqüestros relâmpago?

Que diabo de televisão é essa, que quando pensamos não poder ficar pior, consegue se superar e metamorfosear-se em algo homogêneo: bosta. É impressionante o salto cultural que demos em tão pouco tempo, um grande salto para cima, para cairmos direto na vala! Só estamos esperando que se dê a descarga...

Câmeras! Câmeras! Câmeras! Vivemos a cultura das câmeras! Câmeras nos bancos, câmeras de trânsito, nos shoppings, nas escolas, reality shows, onde você possa imaginar, espionando o cotidiano. Claro, a intimidade também pode ser comercializada. Talvez eles coloquem câmeras dentro das bocas dos artistas de novelas, para nos masturbarmos com o movimento das línguas. Vão colocar câmeras nas privadas, para que possamos ver como é a merda dos artistas e famosos. E no dia seguinte, uma enxurrada de inúteis programas de promoção e fofocas das vidas dos mesmos artistas e famosos, discutirá a respeito obturações e questões escatológicas. É a celebração da espionagem da vida alheia, da intimidade que não interessa a ninguém, só aos artistas, e famosos é claro, que querem se promover. Aliás muita gente questiona essa brilhante classe da sociedade receber o título de artistas. Como não? Claro que são artistas, artistas do grotesco, do patético, da arte da ostentação e da miséria mental. Nossos idolatrados modelos movidos à cocaína.

A violência também pode ser comercializada, gerando ibope. Desde os programas fasci-sensacionalistas, tipo Cidade Alerta, passando pelos telejornais, até os programas de auditório, sempre é possível espremer o tema até a última gota, sempre há um político idiota ou um convidado cretino para dar sua inútil opinião ou sua fórmula mágica para o fim do caos social. Ao mesmo tempo, os veículos de comunicação passam a “mensagem”. Repare que só se fala em investir em polícia, criar equipes gestapo-tarefa, usar desde as câmeras de trânsito até o exército contra o crime, e muitas outras perversões. É claro, essa é a prática de todo governo autoritário disfarçado de democrático: anunciar medidas de impacto para acalmar principalmente a classe média e a elite; planos incríveis que prometem resultados em poucos meses, a mesma conversa de sempre! Não podemos esquecer dos vagabundos que vivem além da realidade, e utilizam a mídia para vomitar pena de morte, mais repressão e controle, tolerância zero, etc. em arroubos coléricos em favor de sua “liberdade”.

Mas, e aqueles que moram nas comunidades? Alguém vai perguntar pra eles se dá pra dormir com granada anti-tanque estourando na porta de casa? Não! A quem interessa? É tão bonito ver a zona sul do Rio mobilizada, toda de branco pedindo paz (só gostaria de saber para quem). Mas enquanto só o pobre tomava tiro e era estuprado ninguém ia pra rua pedir paz! Ninguém fala da brutal desigualdade social, da crescente miséria, acham que vão acabar com a violência botando um policial nas costas de cada cidadão. Na verdade não querem acabar com nada, o tráfico de drogas dá lucro pra elite e a miséria é o projeto das elites globais para países como o nosso.

Em nossa sociedade da era industrial, a cultura de massas rege nossas necessidades, é a cultura do consumo. “Modelos” mostram como e o que devemos consumir para que tenhamos status, aquele que consome tem necessidades, e se ele tem necessidades deve consumir. Ficamos anestesiados, passando a vida toda em busca de sonhos, sonhos criados para nos manter correndo em círculos. O objetivo é a liberdade, mas a liberdade capitalista, do consumo, de poder ser como um dos milhares de “modelos” com os quais devemos nos identificar. Acontece que apenas uma minoria tem condições de consumir nesse país, e quando sua liberdade de consumo é impedida é que essa minoria começa a reclamar e se mobilizar. Quando o sujeito não pode andar com o relógio novo, no seu carro zero, não pode pegar dinheiro no caixa eletrônico, sofre seqüestro relâmpago, enfim, quando não é mais apenas o pobre que sofre a violência e ela chega também aos bairros da elite, é que a mesma sai às ruas e faz campanha bonita com artista de novela pedindo paz! O sonho não pode ser interrompido, eles vivem apenas para o consumo, para o ter, para a aparência e o status.

É o pão e o circo da classe média, só que o pão é vendido no shopping e o circo passa na tv. Dane-se o social! Polícia nas ruas! Policia nos morros! Mas só apontam o dedo na cara do morro: bandido! Traficante! Ninguém quer saber o que pensam, ou que a maioria daqueles que lá moram são pessoas que acordam de madrugada, pegam mais de uma condução e passam o dia dando duro, dando duro, entre outras coisas, para construir a casa em que você mora, para fazer o pão que você come todo dia, para limpar a rua em que você pisa, para te atender atrás do balcão, para vender bala no ônibus, para montar o carro e os aparelho que você usa, para deixar a classe média feliz. Pessoas que também sentem dor quando apanham da polícia, que também sofrem quando o filhos morrem de bala “perdida”.

Está na hora do nosso show da realidade, mas da realidade cotidiana, a verdadeira realidade. Nós somos os astros desse show e todos devemos sair vencedores. Passo a passo pelo caminho que leva à revolução social.

Escrito por ÞH †µx às 14:11:25
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